O PRETEXTO

[Chico Pascoal. Nasceu no Brasil. Com o conto que aqui se publica concorreu ao concurso de contos do Rota das Letras – Festival Literário de Macau, em 2014]

O pretexto

Anônimo e introspecto, o estrangeiro retorna a pé em hora erma ao hotel em que é hóspede e onde uma cama vazia (sua única certeza) o espera. Procede de um dos tantos cassinos da cidade onde esteve não a tentar a sorte que, segundo dizem, bafeja aqueles que são infelizes no amor (o que é o seu caso), mas porque movido pela necessidade vital de estar entre gente, como se o simples ato de frequentar ambientes de intenso movimento pudesse escudá-lo, defende-lo da solidão que o acossa.

Anda. À sua frente uma escadaria dá para a um pequeno largo onde a iluminação pálida amortecida por sombras enlutadas, que transbordam pelos beirais e se esparramam por entre casarões e árvores seculares, assim como a bruma da madrugada tornada ainda mais espessa pelo fumo expelido por centenas de baldes com resmas de papel fotocopiado imitando cédulas de dinheiro a queimar diante das residências e lojas ao longo de todo o trajeto por ele percorrido, criam toda uma atmosfera de emanações insólitas e irrespiráveis. Ele ainda não sabe, mas tudo isso faz parte de um ritual milenar da cultura chinesa conhecido como o “Mês dos Espíritos Famintos”. Nas ruas que percorreu, ele precisou se desviar de caixinhas coloridas e estojos com presentes, biscoitos, frutas, rebuçados, cigarros e garrafas de vinho; oferendas dedicadas aos finados a fim de apaziguar o arraigado apego de suas pobres almas extraviadas aos bens materiais, às paixões terrenas.

A este transeunte que ora trafega incógnito por espaços que nem de longe lhe são peculiares, há que se perdoar pelo desconhecimento dos assuntos de ordem metafísica relativos à tradição local. Tudo que lhe foi dado ver e ouvir até agora, irá, de alguma forma, influir em seu comportamento.

Horas mais tarde, já com a luminosidade dourada da manhã refletida no espelho das águas da Baía da Praia Grande, estimulado por maciças doses de café forte, este mesmo transeunte irá empreender considerável esforço no sentido de convencer a si mesmo de que nada do que sucede nesta madrugada merece ser levado a serio. Que tudo não passa de uma alucinação, de um desvario, decerto sugerido pelo exótico do cenário ou pelo seu próprio estado de espírito (sofre por alguém). De modo que, por mais que ele tente se desvencilhar dos detalhes deste improvável encontro, estes continuarão a se apresentar nítidos em sua memória, deixando-o cada vez mais intrigado.

Alberto, que é como este estrangeiro se chama, percebe a moça ainda do alto desta escadaria que liga o Largo do Lilau à Rua da Penha (os nomes nas placas, ele já havia notado, são todos grafados em chinês e português). Ela ocupa o banco ao lado de uma pequena fonte que almeja resgatar o charme do bebedouro público dos tempos idos. A silhueta é esguia, diáfana. Tem o porte nobre de uma garça. Ocultas sob os cabelos longos e soltos as feições que ele tenta adivinhar. No mais é de constituição frágil, pele pálida, quase translúcida. Ele não lhe dá mais que dezesseis anos.

Uma miragem, ele deduz. Uma miragem de vestido longo e vermelho que se materializa no deserto monocromático da sua fantasia. Por não querer acreditar no que vê, cerra os olhos. E apesar disso ela continua lá, com a sua beleza díspar e doentia, envolvida por uma quase imperceptível aura de mistério.

Fios invisíveis o retêm. Diante dela, ele retarda o ritmo e o avanço dos seus passos. Sente no mesmo instante invadi-lo, mais que a natural curiosidade de forasteiro, um fascínio e uma atração como não lhe ocorre desde viu se desmoronar a relação amorosa da qual ele era um dos pilares, e que acreditava ser de estrutura sólida e imune a abalos.

Sem que se dê conta, ele se vê agora a uma distância que, por ínfima, inviabiliza o ato de retroceder sem ser percebido.

“Precisa de ajuda, moça?”, ele adianta-se. Pergunta em português que é como as palavras lhe vêm de dentro. Embora o silêncio, como que por um decreto de um mandarim ou de um vice-rei, se imponha absoluto e inquestionável, ao ponto de ele não conseguir ouvir a sua própria voz.

Ela não responde. Seu pranto que não desata é externado apenas pelo sacudir dos ombros e a oscilação dos seios firmes e perfeitos.

Por se acharem tão próximos um do outro, Alberto não crê que ela não possa tê-lo escutado. Se ela não o contesta é porque certamente quer estar só. Insistir seria violar a sua individualidade, desrespeitar os limites da sua dor; pois é dor, física ou da alma, que Alberto supõe que ela esteja a sentir. Vencido, ele ensaia uma retirada, um recuo.

“Não se vá!”, ela o surpreende. Fala na mesma língua que ele, mas é como se despendesse suas derradeiras energias na intenção de resgatar em seu íntimo palavras obsoletas e vocábulos empoeirados há muito sem uso.

Alberto pode então analisar de perto aquele rosto: olhos rasgados encimados por sobrancelhas bem delineadas; boca grande e sensual; um nariz delicado… Os traços sutis a denunciar incontáveis cruzamentos sanguíneos. Oriente, Ocidente.

“Por favor!”, ela suplica. O último fonema diluindo-se no murmúrio tranquilo e continuado da fonte.

Cautelosamente, Alberto toma assento ao seu lado. Ouvidos atentos ao que possa vir daqueles lábios titubeantes, ele espera. E exercita uma paciência que não reconhece como sua.

Depois de um longo silêncio ela se manifesta. E o que se segue é um monólogo fragmentado e confessional.

A protagonista da trama ambígua que a moça de vermelho descreve ora na primeira pessoa, ora na terceira, é nela que Alberto põe rosto, corpo e voz. Só o cenário, o mesmo em que estão ambos inseridos, permanece intocável com seus tijolos e pedras insubjugáveis, com seus telhados oprimidos por um céu alumiado pelas luzes das fachadas dos suntuosos templos da jogatina.

A jovem estende suas mãos – mãos frias, quase enregeladas – e as deposita nas dele. Depois fala atropeladamente das consequências de um amor impedido, do temor que se justifica pela iminência de uma tragédia.

“Ele a mata se souber!”

Alberto suspeita que ela carregue dentro de si muito mais que segredos, muito mais que temor.

“Penso se não seria melhor me matar antes”

A honra conspurcada; o nome da família em jogo; a condenação sumária e inapelável por uma sociedade preconceituosa; as ameaças… De quem? De um noivo humilhado? Do pai ofendido? De ambos? Deus! Em que tempo estamos?

O pomo da discórdia cresce-lhe interna e vertiginosamente por obra de alguém cujo nome ela protege e jura não revelar nem sob tortura. Só concede dizer que se trata de um estrangeiro como tantos outros que aqui aportaram ao longo dos séculos e fincaram seus padrões de pedra (fálica analogia), e sugaram o quanto puderam, e que se foram um belo dia deixando suas saudades, sua genética mediterrânea e seus sobrenomes impressos nos azulejos que identificam as vias públicas. Um estrangeiro como ele próprio, Alberto.

De repente, passos duros de botas ferradas que retinem e arrancam faíscas às pedras do pavimento, antecipam a presença de uma terceira sombra. A moça se aninha assustada no peito do forasteiro como uma criança que se impressionasse com estórias de assombração. Respiração entrecortada, eles não se atrevem a erguer os olhos.

Desnecessário dizer que pressentem, suspensa no ar rarefeito da madrugada, uma presença forte, ameaçadora; que um olhar de predador varre minuciosamente cada centímetro do Largo. Os eflúvios de suor, tabaco e bebida alcoólica, isso eles também podem sentir, assim como captam o ríspido rilhar de dentes em uma boca hidrófoba crispada pela cólera. Não podem, contudo, precisar os contornos desta sombra disforme que, parte espraiada ao longo da calçada, parte colada à parede trincada com incontáveis camadas de tinta superpostas, parece espreitá-los. Acaso quem a projeta portará uma arma? A quem, em sua obsessão e demência procura e com que intenções?

Musculaturas tensas. Bocas secas. Temor compartilhado. A aflição é a da presa que presente o perigo, mas não encontra nem ânimo nem oportunidade para a fuga. “Aonde eu vim me meter”, queixa-se mentalmente Alberto, sem escapar ao clichê do homem errado no lugar errado.

Gárgula imóvel, o perseguidor – um gui* esfaimado e sedento a cobrar o que lhe devem os vivos? Um pobre pai afrontado com os nervos em frangalhos e a ponto de cometer um ato impensado? – perscruta os arredores, fareja as correntes de ar que agitam a folhagem das frondosas árvores-de-pagode. A brisa marinha canalizada através dos becos, contudo, não os delata.

Súbito, quando já não duvidam que serão descobertos, a Sombra enceta furiosa carreira em direção contrária ao canto que os abriga. À medida que se afasta do Largo do Lilau seguindo pela Rua do Padre António, o som furioso do seu tropel enfraquece até que não se possa mais ouvi-lo.

Recuperado o ritmo normal do seu metabolismo, eles entendem que foi por pouco; apesar disso, lhes assalta uma duvida: seriam eles quem a Sombra intimidante de fato buscava?

“Onde você mora?”, pergunta Alberto. Subentende-se na sua intenção de conduzi-la a um lugar seguro, a necessidade de também se resguardar. Puro instinto de autopreservação.

“Tenho fome”, ela se queixa, desatenta à pergunta que lhe é dirigida. A expressão explicita outra classe de aflição.

“Tenho fome”, ela diz, quando deveria dizer “Temos fome” e falar por si e pela criança que se forma em seu ventre.

A hora, a Alberto, lhe parece imprópria para que se pense em comida. Por não ter experimentado ainda a paternidade, ele definitivamente não entende nada sobre desejos de gravidez. No entanto, lembrando-se de ter visto em seu trajeto um pequeno restaurante situado ao pé da Rampa da Barra, ao lado de um edifício antigo conhecido como Quartel dos Mouros, ele olha-a nos olhos escuros e estranhamente foscos e detecta neles a anuência ao convite que ela espera que ele faça. Sem perda de tempo é para lá que se dirigem.

“Morro se não comer alguma coisa!”, a moça repete, dramática e continuamente, as mãos comprimindo a barriga incipiente, devorando com os olhos as oferendas espalhadas pelas calçadas. Mais de uma vez ele a impede que se atire sobre os pacotes de rebuçados, as cestas de frutas.

Enquanto andam, ele se volta repetidas vezes. Para certificar-se de que não estão sendo seguidos. Assume sozinho esta preocupação, já que a moça a quem faz companhia centra-se, única e exclusivamente, na necessidade de saciar sua fome repentina e desmedida.

No restaurante eles são os únicos fregueses. Demorassem-se mais alguns minutos e encontrariam as portas fechadas. Os garçons, apesar do avançado da hora, atendem-nos com bom-humor e solicitude como se fossem os primeiros clientes da noite.

A jovem de vermelho adianta-se. Faz o pedido. Enfatiza a urgência como se tratasse de uma questão de vida ou morte.

Farto de sobressaltos, Alberto escolhe sentar-se em um ponto que lhe permita ter uma visão ampla da porta de entrada. E pede um conhaque.

O atendimento se faz rápido. A prenhe não espera sequer que os garçons a sirvam e já ataca os pães e patês servidos como entrada, o tradicional arroz chau chau e o espaguete ao sugo com mariscos. Sua disposição e voracidade são impressionantes. Tamanha é a sua afobação que um fio de molho escarlate lhe escapa pelo canto direito da boca, escorre-lhe pelo seu pescoço alvo e longilíneo, invade-lhe o vale das mamas intumescidas para tornar-se uma mancha escura no tom encarnado mais ameno do seu vestido.

Alberto não se arma do mesmo entusiasmo. Contenta-se em bebericar o seu drinque enquanto assiste aquele selvagem espetáculo de deglutição.

A ação letárgica da bebida sobre o seu organismo logo se faz sentir. Um longo bocejo não deixa dúvida de que agora é o sono quem está no comando. Incapaz de reagir, ele simplesmente aceita que as suas pálpebras de chumbo se cerrem.

Minutos depois uma leve sacudidela no seu ombro direito o desperta. Leva mais alguns segundos até que Alberto se situe e se lembre de como veio parar ali.

“Onde ela está?”, procura em volta. Está atordoado.

O garçom que o acordou, um jovem chinês de gravata borboleta e cabelos gomalinados, apenas sorri. Deduzindo que não falam a mesma língua, Alberto apela para o inglês. A comunicação, ainda que precária, torna-se possível.

“A moça. A que veio comigo. Ela… foi ao toalete?”

“Não, senhor”, responde o garçom. O sorriso inalterado.

“Não entendo, ela…”, de repente, ele se sente outra vez traído.

O rapaz meneia a cabeça. Ergue o indicador. Pede-lhe que o deixe explicar.

Alberto não esconde a irritação e exige:

“Se não foi embora, por que não diz logo onde ela está?”

“Em lugar nenhum, senhor. Quero dizer: não há garota alguma. O senhor chegou aqui desacompanhado.”

Alberto ri nervoso. Os outros dois garçons da casa também riem, mas confirmam o que o colega disse.

 

Estão de conluio, conclui mentalmente Alberto. Combinaram tudo para se divertir às minhas custas. E reprovando o humor dos orientais diz para si mesmo que não fará papel de tolo entrando no jogo deles.

 

Ocorre-lhe de repente que, se pedir a conta, considerando-se que a gestante esfomeada fez um estrago razoável, o valor devido não será tão ínfimo; o que lhe permitirá colocar tudo, literalmente, em pratos limpos.

Na conta que lhe é apresentada consta o preço de um único conhaque. Nem mais nem menos. É o que ele deve pelo que consumiu, explicam. Ele decide que não argumentará mais diante de tão cínicos interlocutores. Acha que seria perda de tempo.

Alberto já está de saída quando, por trás das cortinas vermelhas com ideogramas que separam o salão principal do restaurante de um cômodo anexo que ele julga ser a cozinha do restaurante, uma voz idosa o evoca.

“Senhor! Espere um instante, por favor!”

Outra vez o chamado da língua que lhe garantiram quase morta desse lado do mundo.

Ele se volta e vê um octogenário de avental e chapéu de chef vir ao seu encontro arrastando lentamente os pés. É um velho mirrado, cujos olhos são dois finos traços riscados no rosto de pele engelhada. Lembra um cule retratado em uma gravura antiga.

“Sou o cozinheiro-chefe Medeiros Wong”, apresenta-se o idoso, estendendo-lhe a mão caquética. “Posso dispor de um minutinho só da vossa atenção?”

Alberto dá de ombros.

O ancião aponta uma cadeira. Pede desculpas em nome dos colegas e diz que talvez possa lhe explicar o que está ocorrendo.

“Entendo que esteja confuso” diz. “Não é a primeira vez que um estrangeiro em Macau passa por semelhante experiência e consequente constrangimento. Mas neste caso, meu rapaz, não é nem bem uma questão de acreditar ou desacreditar. O fato é que Eles existem. Como as bruxas e os demônios.”

Eles. A quem este senhor se refere? Alberto se questiona.

E o ancião lhe conta de um março de triste memória, em que teve palco em uma daquelas antigas residências do Largo do Lilau terrível tragédia doméstica. Num acesso de insanidade um herói e filho da terra, o coronel do Exercito Português Vicente Nicolau de Mesquita, atormentado por graves problemas familiares, tirou as vidas da sua esposa e da sua própria filha matando-se em seguida. O motivo para o infame ato, presume-se, seria o envolvimento amoroso da moça com um oficial-médico da Armada Portuguesa, um homem casado. Algo inaceitável para os padrões morais da época.

 

Percebendo aonde o senhor Wong quer chegar, Alberto o interrompe impaciente.

“Deixe-me ver: o senhor me contou tudo isso com o intuito de me convencer de que aquela mulher a quem acompanhei até aqui ainda há pouco era na verdade uma aparição, um espectro?”

“Não quis ofendê-lo, não me entenda mal, meu jovem”, o cozinheiro ergue a mão trêmula pedindo-lhe calma. “Vê-se o que se quer ver e acredita-se no que se quer acreditar. Apenas lhe contei uma velha historia macaense porque estou certo de que isso possa ajudá-lo a…”

Alberto ergue-se aborrecido. Não quer ouvir mais nada. São absurdos demais para uma só noite, reclama. E deixa rapidamente o restaurante.

Por volta do meio-dia, com a intenção de tirar tudo aquilo a limpo, Alberto retorna primeiro ao Largo do Lilau onde procura em vão por vestígios que lhe esclareçam o que realmente aconteceu àquela madrugada. A vida naquele pequeno oásis de paz no meio da cidade transcorre suave e tranquila: crianças em uniforme escolar compram confeitos no quiosque situado à sombra das árvores centenárias, mães passeiam com seus bebês, velhinhos jogam o xianqi ou folheiam sem pressa os seus jornais.

Dali ele segue até o restaurante onde esteve antes do dia amanhecer. Deve desculpas com o senhor Medeiros Wong por não ter sido respeitoso para com ele, quando o gentil e desinteressado ancião macaense se dispôs a ajudá-lo.

“Medeiros Wong? Sim, claro” responde o gerente da casa. “Sei quem foi”

Foi. O verbo conjugado no pretérito perfeito, observa Alberto.

“Era o antigo chefe-de-cozinha desta casa” continua o gerente.

Era. Outra malversação do tempo verbal?

“Não tive a honra de conhecê-lo pessoalmente. Dizem que foi um dos melhores, tendo inclusive cozinhado para o governador português Lopes dos Santos. Há a versão de que tenha emigrado para a América e feito fortuna por lá; mas há também quem diga que ele permaneceu aqui mesmo em Macau, e que terminou os seus dias no Asilo de São Francisco Xavier”

Aturdido por aquele pesadelo sem fim, Alberto torna a errar pela cidade como essa fosse a única forma de se ver livre da trama surreal que o enreda. A tarde há de surpreendê-lo, os pés doloridos, sentado na escadaria das Ruínas de São Paulo.

Na fotografia tirada diante da imponente fachada de uma catedral incorpórea, em primeiro plano, um Alberto de cabelos longos, revoltos e castanhos mira um ponto impreciso para além da câmera com que uma turista, a seu pedido, lhe enquadra. Nos seus olhos o desassossego por tanto guardarem de distintos planos àquelas últimas horas. A barba por fazer e a roupa amarrotada denunciam o desleixo de quem ainda não aprendeu a lidar com a desarrumação que provoca o desengano. Quinze degraus acima e à sua direita, sem que ele pareça se aperceber da sua presença, vê-se a moça glutona de rosto bonito e vestido vermelho que ele conheceu ou apenas imaginou ter conhecido no Largo do Lilau. Desfocada e reduzida pela ilusão da perspectiva à metade do seu tamanho natural, mãos na cintura e o queixo levemente erguido em pose de modelo de revista de moda, ela sorri. Intui-se, à primeira vista, nesse sorriso bonito apenas insinuado, uma secreta satisfação.

Este retrato atesta a única e breve passagem de Alberto Monteiro, quando jovem, por terras chinesas. É irrefutável prova de que, em uma madrugada cálida de um distante agosto, ele esteve a vagar ruas da velha Macau com o pretexto de buscar motivação para escrever um romance; pretexto este que na verdade encobria outro: o de manter-se o mais distante possível de tudo que lhe recordasse a mulher que tanto amava e que o tinha descartado alegando ter se equivocado redondamente em relação ao que jurara sentir por ele.

Na noite agitada em que se converte esta mesma tarde capturada pela grande-angular da velha câmera fotográfica, eficientíssima peça de museu da qual Alberto se recusa terminantemente a abrir mão, o encontramos sentado à mesa de um café na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção a rascunhar as primeiras linhas do que pode vir a ser o romance que ele supostamente persegue.

 “Anônimo e introspecto, o estrangeiro retorna a pé em hora erma ao hotel em que é hóspede e onde uma cama vazia (sua única certeza) o espera.”

E sendo assim aquele pretexto inicial por ele forjado para não deixar exposta a fratura do seu desapontamento, qual uma máscara que perdendo a sua função de dissimulação se torna em rosto, converte-se no que de fato o motivou a vir a Macau. Se houve em algum momento uma separação dolorosa e difícil de assimilar; se se cometeram crimes em nome da honra ou se porventura se presenciou entre viventes sem esperança o vaivém desorientado de espectros indigentes; tudo agora se resume apenas em tinta, papel, em páginas, em literatura.

*. Gui: (Kwai, em cantonense) Espíritos famintos que não têm quem lhes faça sacrifícios.

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